Seminário reuniu, em Brasília, pesquisadores, parlamentares e representantes da sociedade civil em torno de alternativas ao atual modelo de desenvolvimento
Parlamentares, pesquisadores, representantes da sociedade civil, movimentos sociais e organismos internacionais se reuniram nesta terça-feira (19), na Câmara dos Deputados, em Brasília, no seminário “Nova Economia para um desenvolvimento justo, sustentável e soberano”. Organizado pela Plataforma CIPÓ e pelo Transforma Economia – Unicamp, com apoio do Global Fund for a New Economy (GFNE), do GT Clima da Frente Parlamentar Ambientalista e da Fundação Heinrich Böll, o evento promoveu debates sobre alternativas econômicas diante da crise climática, do aumento das desigualdades e das transformações no mundo do trabalho.
Logo na abertura, a diretora-executiva e cofundadora da CIPÓ, Maiara Folly, destacou que as crises atuais não são resultado de falhas isoladas, mas consequência direta da forma como a economia global está estruturada. “Os 10% mais ricos da população mundial concentram 54% da renda global e 74% da riqueza global”, lembrou. Segundo ela, o atual modelo econômico tem como pilares “a produção das desigualdades, a concentração de riqueza, a produção de emissões de gases poluentes e o extrativismo”.
Para Folly, a construção de uma nova economia exige ação política e institucional. “Nós precisamos de marcos regulatórios, inclusive para gerar incentivos ao que a gente considera políticas públicas alinhadas a um novo modelo de desenvolvimento econômico”.
Concentração de riqueza e desigualdade em pauta
Ao longo do encontro, os participantes defenderam que a transição ecológica e social não pode ser tratada apenas como ajuste técnico ou ambiental, e sim como uma transformação estrutural das bases econômicas e políticas do país. O vice-presidente do GFNE, Pedro Rossi, argumentou que o paradigma neoliberal já não responde aos desafios contemporâneos. “A desigualdade mina as democracias ocidentais”.
Na mesma linha, o diretor-executivo do Transforma, Marco Antonio Rocha, defendeu ser preciso construir um projeto coletivo capaz de mobilizar novamente a sociedade em torno de perspectivas concretas de mudança. “A política precisa voltar a encantar as pessoas com a possibilidade de mudança concreta na vida”.
O professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Sérgio Gabrielli, que é ex-presidente da Petrobras, chamou atenção para a necessidade de rever os próprios fundamentos da economia diante das transformações sociais e ambientais em curso. “Nossa economia, enquanto marco teórico, está no século XVI, para não falar no século XVII”, afirmou. Para Gabrielli, o debate econômico precisa recolocar “a vida e a sobrevivência” no centro das decisões políticas.
Debatedores apontam limites do modelo neoliberal
A dimensão internacional do debate apareceu na fala de Mayra Juruá, oficial nacional de Gestão de Programas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). De acordo com ela, a crise climática já produz impactos concretos e aprofundará ainda mais desigualdades históricas na região se não houver mudanças estruturais.
“Ajustes marginais não serão suficientes. Precisamos de transformações estruturais”, opinou. Juruá alertou que a descarbonização, sozinha, não garante desenvolvimento. “É preciso discutir como vamos fazer essa descarbonização e como vamos fazer esse desenvolvimento produtivo verde”.
A assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC) Alessandra Cardoso criticou os limites das políticas atuais de financiamento climático e transformação ecológica. Na avaliação dela, muitos dos instrumentos hoje apresentados como soluções verdes acabam reforçando setores tradicionais da economia.
“Esses mecanismos estão muito mais orientados a uma reacomodação da velha economia do que, de fato, a uma transformação ecológica e à construção de uma nova economia”, afirmou. Cardoso também defendeu maior investimento público em adaptação climática, socio-bioeconomia e garantia de direitos territoriais.
Discussão sobre nova economia inclui trabalho e qualidade de vida
Integrante do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), Lucas Sidrach relacionou o avanço da pejotização e da uberização ao aumento da precarização e do adoecimento dos trabalhadores. “A precarização do trabalho sofreu uma modernização com as novas ferramentas”, observou.
Ao defender a redução da jornada e o fim da escala 6×1, Sidrach disse que a discussão econômica precisa incorporar cultura, bem viver e relações humanas mais saudáveis. “Eu espero muito que o PIB de Minas Gerais seja movimentado pela música do Milton Nascimento, e não pelas nossas serras”.
O seminário reuniu ainda representantes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do Observatório do Clima, do Ministério da Fazenda, do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (Conselhão) e parlamentares como Jack Rocha (PT-ES), Chico Alencar (PSOL-RJ) e Bohn Gass (PT-ES), que trouxeram contribuições sobre democracia, transição ecológica e desenvolvimento sustentável no Brasil.
Foto: Renato Araújo / Câmara dos Deputados




